A marcha do Imperador

Uma das melhores animações do ano, "Happy Feet: O Pingüim" ("Happy Feet") conta a história de pingüins Imperadores da Antártica. O longa-metragem estréia nesta sexta, dia 24 de novembro, justamente próximo às férias escolares e em um momento no qual o cinema de animação está exigente quanto à qualidade dos filmes.
Idealizado antes do documentário francês "A Marcha dos Pingüins" ("La Marche de L'Empereur"), de Luc Jacquet, que estreou no início do ano, "Happy Feet" é original, mas certamente levou cerca de quatro anos para ficar pronto (o que é extremamente normal para este tipo de longa).
Na trama, Mano (com voz de Elijah Wood na fase jovem e na versão original) é um pingüim diferente do restante. Até aí nenhuma novidade, basta se lembrar da história de "O Patinho Feio". Porém, aqui não é por sua beleza que ele é rejeitado. Mano não sabe cantar, a principal qualidade para um pingüim que precisa ter a sua "canção do coração" para conquistar a sua cara metade.


Mano Happy Feet tem os pés felizes, capazes de sapatear tal como Fred Astaire faria. As coreografias, aliás, são assinadas por Savion Glover e Kelley Abbey, com músicas compostas por John Powell.

A mãe de Mano, Norma Jean (Nicole Kidman), acha o sapateado engraçadinho, mas o pai, Mênfis (Hugh Jackman), diz que "isso não é coisa de pingüim".
Ao contrário de Mano, Glória (Brittany Murphy), sua melhor amiga, é uma excelente cantora. Ela e os demais pingüins interpretam canções de Fred Mercury, do Queen, e Prince, que são os momentos mais eufóricos do longa. Mano e Glória se identificam desde o primeiro encontro, porém, ela não aceita o jeito esquisitão dele.

E por ser desafinado e ter um tique nos pés, Mano é expulso de sua colônia e é a partir daí que ele conhece um outro grupo de pingüins com sotaque latino, como Ramon (Robin Williams), que o admiram e vão fazer de tudo para ajudar o amigo. Na Terra dos Adelies, Mano procura os conselhos de Amoroso, o Guru (também dublado por Williams), um pingüim saltador-de-rochas de penas estranhas, que responde a qualquer pergunta sobre a vida em troca de uma pedrinha.
Nesse meio tempo, eles descobrem que alienígenas estão acabando com os peixes da região e, portanto, destruindo a cadeia alimentar. O longa-metragem, embora seja infantil, tem uma mensagem que se estende para toda a família, sobre como estamos tratando o planeta e os animais que vivem nele.

O diretor australiano George Miller ("Mad Max") já teve sucesso na animação com "Babe, o Porquinho" e continua cumprindo a tarefa da melhor maneira possível. Ele, que não filma desde 1998, retorna às telas contando uma história de primeira, se utilizando de recursos tecnológicos avançados, sem perder a mão de elementos essenciais para se contar uma boa história. Happy Feet é uma animação obrigatória não só para quem ama cinema, mas também para aqueles que prezam por uma produção bem feita, aliada a uma história bem contada e com personagens psicologicamente bem construídos.

Moçada paz e amor

O ano em que Caetano Veloso voltou ao Brasil, após três anos de exílio em Londres, é o pano de fundo para o primeiro longa-metragem de José Emilio Rondeau. "1972" estréia nesta sexta-feira, dia 24, nos cinemas. Nos Anos de Chumbo, no Brasil, Júlia (Dandara Guerra) trabalha na redação de um jornal, mas tem como objetivo escrever sobre rock and roll. Naquela publicação, porém, é inviável. É por isso que sua chefe, Iracy (Louise Cardoso), a demite, para que Júlia possa ir atrás do seu sonho.
Do outro lado da cidade vive Snoopy (Rafael Rocha), cujo sonho é consolidar sua banda, a Vide Bula, ao lado dos amigos Zé (Bem Gil) e Piolho (Pierre dos Santos).

Na ocasião da exibição do documentário "Gimme Shelter", dos Rolling Stones, o músico e a jornalista se encontram e iniciam uma relação marcada por hesitações típicas da idade. O longa-metragem conta uma história de adolescente para adolescente. Apaixonados pelos Rolling Stones, os personagens exibem o símbolo da banda, mas em nenhum momento a música de Mick Jagger faz parte da trilha sonora. Há apenas imagens de um show que marca o início da turnê americana em fusão com a apresentação da Vide Bula.
Faltam aos personagens, além de emoção na interpretação, características dos jovens da época, que tinham como principal motivação o sexo (motivo para chamar a atenção na época da Ditadura Militar) e o uso de drogas, que era bastante comum.
Vindo do videoclipe, Rondeau perde um pouco a mão na linguagem quando migra para a telona. Mais do que a direção fraca, o roteiro de sua autoria, ao lado de Ana Maria Bahiana, é frouxo e o argumento é tolo. Talvez a opção por usar atores desconhecidos seja um tiro n'água, porque não possui o chamariz nem para atrair o público e fazer a bilheteria.

A dois passos do paraíso

Toda vez que há um lançamento de filme nacional, a primeira pergunta é sobre o tema, que varia entre ditadura militar e o sertão nordestino. Sobre os Anos de Chumbo, os exemplos mais recentes são "O Ano em que os Meus Pais Saíram de Férias", "Zuzu Angel", "Olga"; na semana que vem estréia "1972" sobre jovens roqueiros. Já no quesito sertão, a lembrança segue rapidamente em direção a longas-metragens como "Cinema, Aspirina e Urubus", "Abril Despedaçado", "A Máquina", "Tieta do Agreste", "O Auto da Compadecida", e por aí vai.

 

 

Nesta sexta-feira, dia 17 de novembro, estréia "O Céu de Suely" (que se passa no sertão), filme dirigido por Karim Aïnouz ("Madame Satã") e participou neste ano do Festival de Veneza e do Festival de Toronto. No Festival do Rio, ganhou prêmios de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Atriz.

Na trama, só se saberá quem é Suely da metade para frente. O papel principal é de Hermila Guedes, que faz Hermila, uma cearense de Iguatu, que havia ido para São Paulo com o marido em busca de melhores condições. No entanto, ela retorna à cidade natal dois anos depois, sozinha e com um filho no colo. Ela vai buscar abrigo na casa da avó e da tia Maria (Maria Menezes). Enquanto isso, aguarda a chegada do marido, prevista para um mês depois. Os dois pretendem montar na praça da cidade um local para cópia de CDs e DVDs.

 

 

Para garantir o ganha pão, Hermila faz bico no posto de gasolina como frentista e à noite vai ao forró se divertir com a tia e com Georgina (Georgina Castro), uma prostituta que ganha a vida satisfazendo caminhoneiros que estejam de passagem pela cidade. Juntas, as duas fumam maconha e cheiram acetona.

 

 

Durante uma noitada, Hermila reencontra um antigo namorado, João (João Miguel), com quem tem novamente um romance. Os dois se envolvem, transam, mas Hermila continua esperando o marido, que não aparecerá mais.

Em virtude do desapontamento, ela vai à rodoviária perguntar para onde há a passagem mais longe dali. A caixa informa que é Porto Alegre ou Pelotas, no Rio Grande do Sul, e o trecho sai por pouco mais de R$ 450. Inspirada pela amiga prostituta, Hermila resolve "se rifar", já que estava acostumada a comercializar rifas de whisky aos moradores da cidade. Desta vez, ela vai vender "uma noite no paraíso" em sua companhia. Mas não é Hermila quem vai. É Suely.

A partir de então, a trama muda o seu curso e a moça de 21 anos sofre preconceito na cidade, a avó manda-a embora de casa e as mulheres dos rapazes que compraram a sua rifa estão em polvorosa. Hermila, ou Suely, porém, não se intimida. Sabe que precisa de dinheiro para sustentar o pequeno Mateus, já que o pai não toma conhecimento, e precisa comprar uma passagem para bem longe do sertão cearense.

O diretor Karim Aïnouz faz um filme intimista, revelando aos poucos os segredos de cada personagem. Com a câmera, ele percorre os locais por onde Hermila passa. Autor do roteiro, Aïnouz optou por não trocar os nomes originais das personagens principais, como é possível reparar. A iniciativa, no entanto, não quer dizer que cada um esteja interpretando a si mesmo. Nada disso. A história vai desvendando cada mistério e cada personalidade aos poucos, sem pressa, mas sempre com poesia e delicadeza. As cenas de sexo são ousadas, mas não ofendem.

A fotografia de Walter Carvalho ("Cazuza - O Tempo Não Pára") fez o sertão caloroso, quente e com céu extremamente azul. Assim como em "Madame Satã", Walter Salles também é o produtor de "O Céu de Suely". Uma parceria com Aïnouz que tem tudo para continuar dando certo. O público que prestigia o cinema nacional agradece.

A polícia do bem e do mal

 

Às vezes Hollywood surpreende. Cineastas consagrados por trabalhos autorais vez ou outra precisam fazer a bilheteria render milhões de dólares e acabam transformando alguns trabalhos em projetos extremamente comerciais. Ou, então, simplesmente não fazem nem sucesso nem sagram-se bons autores.

 

 

O diretor Martin Scorsese, por exemplo, não foi tão bem-sucedido em suas duas últimas parcerias com Leonardo DiCaprio, quando filmaram "Gangues de Nova York" (2002) e "O Aviador" (2004). Desta vez, porém, é bem diferente. No final de semana de estréia nos Estados Unidos, a bilheteria de "Os Infiltrados" ("The Departed") rendeu um bom número: US$ 27 milhões. Por aqui, o longa-metragem fez suas primeiras apresentações em São Paulo durante a 30ª Mostra Internacional de Cinema, mas a estréia nacional está apontada para esta sexta-feira, dia 10 de novembro, e tem tudo para reconquistar os fãs de bons filmes,  como o clássico "Taxi Driver", além de "Os Bons Companheiros", "Cassino".

 

A fita se passa em Boston, onde o Departamento Estadual de Polícia de Massachusetts tenta combater o crime organizado da cidade comandado por Frank Costello, personagem do ótimo Jack Nicholson.

 

 

Cabe a um novato, Billy Costigan (DiCaprio), infiltrar-se na quadrilha.

 

 

Do outro lado, Costello faz com que um homem seu, Colin Sullivan (Matt Damon), ganhe a confiança dos seus superiores dentro da polícia para poder enviar informações ao chefão. Embora haja evidências de que existem informantes dos dois lados, o mote da história é descobrir quem é o traíra e definitivamente eliminar as fofocas que rondam dentro da polícia e, claro, acabar com o reinado de Costello.

 

 

Os dois contam, sem saber, com a ajuda de Madolyn (Vera Farmiga), uma psiquiatra que lida com os jovens integrantes da polícia que estão prestes a perder a cabeça.

Bem movimentado, o longa-metragem entretém o espectador do começo ao fim, que acompanha as histórias paralelas, mas dificilmente consegue tomar algum partido, já que os atores são envolventes, faz com que DiCaprio tenha uma excelente performance (como pouco se viu no cinema), ao mesmo tempo em que Damon desenvolve um personagem envolvido com a máfia e a mando do chefão.

O roteiro de William Monahan é baseado no suspense "Conflitos Internos", lançado em 2002, em Hong Kong, e acompanha a direção de Scorsese em sua melhor forma, como há muito não se via.

A volta do brilho feminino

Depois do longa-metragem "Má Educação" (2004), o cineasta espanhol Pedro Almodóvar quebra o hiato e volta a retratar no cinema o universo feminino. Admirador confesso do dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, Almodóvar lança "Volver", que marca também a sua parceria com a atriz Penélope Cruz, tal como aconteceu em "Tudo Sobre Minha Mãe", em 1999, e "Carne Trêmula", em 1997.

 

 

Em Madri, Raimunda (Penélope) é mãe de uma adolescente e esposa de um carrancudo desempregado que fica tomando cerveja e assistindo ao futebol pela televisão.

 

 

Trabalhando duro para o dinheiro no final do mês render, ela divide as suas angústias com a irmã Sole (Lola Dueñas), que ganha a vida com um salão de beleza não declarado. As duas vão viver situações paralelas e ambas escondem segredos de família. O mais importante para Raimunda, neste momento, é proteger a filha, que se envolve em um problema sério.

 

 

Sole, por sua vez, ouve os vizinhos da aldeia onde moram as tias comentar que viram o fantasma de sua mãe (Carmen Maura), que morreu em um incêndio.

Com cenas de mistério que incluem a trilha sonora rítmica nos momentos de tensão, o drama envolve o espectador, mas não o surpreende, já que os fãs de Almodóvar talvez esperassem novidades. As cenas que tratam do amor em família são belíssimas. Como é a sua característica, Almodóvar deixa de lado os personagens masculinos, que saem de cena rapidamente para dar lugar às mulheres, principalmente no quesito sensualidade. Não se trata de seu melhor filme, mas sem dúvida é um bom retorno à atividade.

As férias que ninguém espera

Brasil. 1970. Ditadura Militar. Copa do Mundo. Junte todos esses elementos e acrescente à mistura uma criança de 12 anos deixada na casa do avô pelos pais para contar esta história. Grosso modo, é assim o longa-metragem "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger ("Castelo Rá-Tim-Bum"), estréia desta sexta-feira, dia 3. O longa, que foi escolhido pelo público do Festival do Rio 2006 como Melhor longa-metragem de ficção e ganhou o Prêmio de Melhor Longa-Metragem na 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é sutil, delicado, com um excelente roteiro e extremamente bem cuidado em cenas remontadas do passado.
Embora já tenha se falado muito no cinema sobre os Anos de Chumbo no Brasil, nesta película é a vez de se assistir a um enredo sob o ponto de vista de garoto que é deixado para trás por seus pais que fogem da polícia. O mote é o exílio e a criança precisa cuidar de si mesma e aguardar a volta dos pais ao mesmo tempo em que assiste às transformações típicas do início da adolescência.
Também há imagens de passeatas, confrontos com a polícia, estudantes que realizam manifestações em troca de um ideal. Essas cenas, no entanto, se justificam e o espectador vai logo perceber que tudo junto, em um mesmo longa, é poesia pura e muita sensibilidade.

Na trama, os pais de Mauro (Michel Joelsas, ótimo!), o judeu Daniel (Eduardo Moreira) e a católica Bia (Simone Spoladore), saem de Juiz de Fora, Minas Gerais, e deixam o menino na porta do prédio onde vive o avô paterno Mótel (Paulo Autran), no bairro do Bom Retiro, em São Paulo.

Quando se dirige ao apartamento do avô, Mauro não o encontra, mas é encontrado pelo vizinho, o também judeu Shlomo (Germano Haiut), que tira o garoto do corredor.

A partir daí entra em cena uma outra vizinha, a pequena e carismática Hanna (Daniela Piepszyk), que logo o convida para almoçar. Os dois jogam, junto com a turma do bairro, futebol, a sua grande paixão.

Ao mesmo tempo em que se diverte planejando e realizando boas jogadas também no futebol de botão (a mesa de jantar é o seu campo), Mauro aguarda ansiosamente a volta de seus pais das férias repentinas. A Copa do Mundo de 1970, enfim, começa, Pelé entra em campo e o longa de Cao Hamburger revive muitas das boas jogadas do ano em que o Brasil foi tricampeão mundial. Entre os jogos, a partida de estréia em que o Brasil ganhou da Tchecoslováquia por 4 x 1.
Nessas passagens, é possível notar que as imagens da televisão, assim como as locuções no rádio, são originais. Tanto cuidado que merece ser levado em conta, principalmente quando se fala em premiações. E, por que não sonhar com o tão desejado Oscar?

A virada mágica de Nolan

Não se trata de um feito enorme e notável, talvez um pouco previsível, mas “O Grande Truque” (“The Prestige”), de Christopher Nolan (“Batman Begins”), pode ser encarado como um quebra-cabeça e diversão na certa. Baseado na obra de Christopher Priest, o longa-metragem, que estréia nesta sexta-feira, 3, nos cinemas, traz Hugh Jackman e Christian Bale, respectivamente como Robert Angier e Alfred Borden, nos papéis principais. Eles são dois assistentes de um mágico, no século XIX, que depois de um grande desastre resolvem seguir carreira-solo e competir entre eles, na tentativa de criar truques cada vez mais ousados e ainda tentar desvendar o segredo do outro.

 

 

Os dois atores, que interpretaram super-heróis no cinema (Hugh Jackman foi Wolverine em “X-Men” e Christian Bale foi Batman, em “Batman Begins”), desenvolvem personagens ótimos, se situam no ambiente proposto do teatro e também das ruas londrinas da época. Ao lado deles, Michael Caine ajuda os mágicos a inventarem novos truques e a bela Scarlett Johansson é uma das assistentes. É de Caine, aliás, o grande ensinamento: “Todo Grande Truque consiste em três atos: A Promessa, A Virada e O Grande Truque”. Ele acredita que as pessoas não querem ver, querem ser enganadas. Com imagens escuras e densas, Nolan envolve o espectador do começo ao fim, pois quem está na poltrona também está a fim de ser enganado e este é o grande feito do longa.

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